segunda-feira, 23 de abril de 2012

Neurofisiologia da Meditação



A meditação é considerada hoje uma poderosa ferramenta para combater os principais desequilíbrios causados pela vida moderna, tais como: estresse, insônia e depressão.
Mas, ao olharmos apenas para os benefícios fisiológicos dessa prática, estamos desconsiderando seu contexto original, relacionado com estruturas espirituais. A prática regular da meditação deve proporcionar maior clareza mental e discernimentos nas escolhas e ações do meditador.
Leia a entrevista com Roberto Simões, coautor do livro Neurofisiologia da Meditação e coloque a meditação em seu devido lugar.
Quais os principais efeitos fisiológicos do estilo de vida urbano atual? Sinceramente, não considero verdadeiro o senso comum atual que avalia o nosso estilo de vida urbano atual como mais estressante do que o da idade média, por exemplo. A vida humana foi, é e sempre será trágica e cheia de vicissitudes a serem vividas. Dessa forma, a fisiologia de um operador de bolsas de Wall Street ou um operário do ABC, um agricultor de Minas Gerais ou um hippie que vive em uma comunidade alternativa pode ser a mesma. Os seres humanos não são apenas frutos da criação (sociedade, cultura) ou da natureza (fisiologia, genética), somos seres bioculturais, ou seja, animais nascidos e, sobretudo, geridos no caldo da sua fisiologia, da sua cognição, da cultura em que estão inseridos e dos símbolos (semânticas, visões de mundo) que construíram (e passam a vida construindo) para eles; somos isso tudo ao mesmo tempo agora, alterando-nos constantemente até o fim da vida.
Como a meditação “remedia” esses efeitos? A meditação é vista por muitos como a grande panaceia do mundo moderno. Ela não cura tudo e não vai ajudar a humanidade a ser mais “humana” e “feliz”. A meditação faz parte de estruturas religiosas/espirituais, como o Budismo, o Yoga, o Hinduísmo, entre outras. A sua aplicação sempre foi associada ao contexto espiritual. Sua prática laica começou há menos de 30 anos apenas; ao lado de cinco mil anos de história, isso não é nada. Vou me explicar melhor, não é só “sentar e meditar por alguns minutos por dia” para se beneficiar da ação de alguns neurotransmissores e hormônios. Não acredito nisso. A meditação, como prática propriamente dita, dentro da estrutura religiosa/espiritual do Yoga, é apenas um passo dentro dos oito sistematizados por Patanjali em seus Yoga Sutras (texto clássico do Yoga). Só meditar não remedia nada se o meditador não souber o que fazer com isso. Mesmo na medicina integrativa e complementar, que se utiliza de algumas técnicas meditativas advindas de estruturas religiosas/espirituais, os benefícios orgânicos não podem estar dissociados de outros fatores cognitivos, psicológicos, culturais e simbólicos das pessoas que praticam a meditação de forma laica, mesmo que alguns assim o acreditem. Dessa forma, os estudos indicam benefícios orgânicos, sim eles acontecem, mas os reais benefícios advêm dos anos de prática, que devem navegar ao lado de alterações sociais, cognitivas, fisiológicas e semânticas. A meditação deve trazer um estado de consciência mais equânime e menos confuso. Um estado integrativo que, ao longo das práticas, possibilite ao adepto um saber com discernimento que o Yoga chama de viveka. Esse saber discriminador possibilita ao adepto do Yoga avaliar constantemente suas atitudes, comportamentos e hábitos que podem ser nefastos a ele e ao mundo a sua volta.
Agora, sob o olhar laico da fisiologia, a meditação pode diminuir a ação da noradrenalina no cérebro que, por sua vez, minimiza a sua ação em regiões específicas do cérebro que, ao final, faz as glândulas supra-renais secretarem menos cortisol, o principal hormônio do estresse.
Como a meditação influencia no estilo de vida do praticante? Como eu disse, a meditação em si não muda nenhum estilo de vida, no sentido filosófico, mas meditar nos dias de hoje, ser budista e praticar Yoga é considerado “chique”, isso faz com que muita gente mude o seu estilo de vida,  pois se tornou uma maneira de mostrar seu nível social. O que muda o estilo de vida é viver o Yoga, no qual a meditação faz parte de sua estrutura religiosa/espiritual, assim como praticar os yamas e niyamas (as condutas éticas do Yoga). Da mesma forma que um católico não muda o seu estilo de vida porque ora alguns minutos por dia, mas sim porque participa de uma comunidade, vivencia a missa e comunga uma doutrina.




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