quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Conceito e a Existência


 Resultado de imagem para o conceito de deus e simplesmente uma funçao psicológica

Após este comentário sobre a formação de novas ideias a partir do tesouro das imagens primordiais, voltemos ao processo da transferência. Vimos que a libido captou seu novo objeto justamente nas fantasias extravagantes e aparentemente sem nexo, a saber: os conteúdos do inconsciente coletivo.
Como já dizia, a projeção das imagens primordiais no médico é um perigo que não pode ser subestimado no prosseguimento do tratamento. Essas imagens contêm não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças à sua energia específica (pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia), exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente e, consequentemente, podem provocar grandes alterações no sujeito.
Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão e, muito especialmente, eclosão de certas formas de esquizofrenia. Se o paciente não conseguir distinguir a personalidade do médico dessas projeções, perdem-se todas as possibilidades de entendimento e a relação humana torna-se impossível. Se o paciente evitar este perigo, mas cair na introjeção dessas imagens, isto é, se atribuir essas qualidades não mais ao médico, mas a si mesmo, corre um perigo tão grave quanto o anterior. Na projeção, ele oscila entre um endeusamento doentio e exagerado e um desprezo carregado de ódio em relação ao médico. Na introjeção passa de um autoendeusamento ridículo e para uma autodilaceração moral. O erro cometido em ambos os casos consiste em atribuir os conteúdos do inconsciente coletivo a uma determinada pessoa. Assim, ele próprio, ou a outra pessoa, se transforma em deus ou no diabo. Esta é a manifestação característica do arquétipo: uma espécie de força primordial se apodera da psique e a impele a transpor os limites do humano, dando origem aos excessos, à presunção (inflação!), à compulsão, à ilusão ou à comoção, tanto no bem como no mal. Aí está a razão por que os homens sempre precisaram dos demônios e nunca puderam prescindir dos deuses.
Todos os homens, exceto alguns espécimes recentes do “homo occidentalis”, particularmente dotados de inteligência, super-homens cujo “Deus está morto” — razão por que eles mesmos se transformam em deus, isto é, deuses enlatados, com crânios de paredes espessas e coração frio. O conceito de Deus é simplesmente uma função psicológica necessária, de natureza irracional, que absolutamente nada tem a ver com a questão da existência de Deus. O intelecto humano jamais encontrará uma resposta para esta questão. Muito menos pode haver qualquer prova da existência de Deus, o que, aliás, é supérfluo. A ideia de um ser todo-poderoso, divino, existe em toda parte. Quando não é consciente, é inconsciente, porque seu fundamento é arquetípico. Há alguma coisa em nossa alma que tem um poder superior — não sendo um deus conscientemente, então é pelo menos “o estômago”, no dizer de Paulo.
Por isso, acho mais sábio reconhecer conscientemente a ideia de Deus; caso contrário, outra coisa fica em seu lugar, em geral uma coisa sem importância ou uma asneira qualquer — invenções de consciências “esclarecidas”. Nosso intelecto sabe perfeitamente que não tem capacidade para pensar Deus e muito menos para imaginar que Ele existe realmente e como Ele é. A questão da existência da Deus não tem resposta possível. Mas o “consensus gentium” (o consenso dos povos) fala dos deuses há milênios e dentro de milênios ainda deles falará.
O homem tem o direito de achar sua razão bela e perfeita, mas nunca, em hipótese alguma, ela deixará de ser apenas uma das funções espirituais possíveis, e só cobrirá o lado dos fenômenos do mundo que lhe diz respeito. A razão, porém, é rodeada de todos os lados pelo irracional, por aquilo que não concorda com ela. Essa irracionalidade também é uma função psíquica, o inconsciente coletivo, enquanto a razão é essencialmente ligada ao consciente. A consciência precisa da razão para descobrir uma ordem no caos do universo dos casos individuais para depois também criá-la, pelo menos na circunscrição humana. Fazemos o esforço louvável e útil de extirpar na medida do possível o caos da irracionalidade dentro e fora de nós. Ao que tudo indica, já estamos bastante avançados nesse processo.
Um doente mental me disse outro dia: “Doutor, hoje à noite desinfetei o céu inteiro com cloreto de mercúrio , mas não descobri deus nenhum”.
Foi mais ou menos o que nos aconteceu.

O Conceito e a Existência, Carl G. Jung, Espiritualidade e Transcendência, p. 46.


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